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Programa Decisão Consciente · 6 de outubro de 2025

Como largar o controlo e confiar no processo

Por Arantxa Pisón, psicóloga sanitária, cédula profissional n.º G-2337 · Atualizado a 15 de novembro de 2025

Há uma sensação que acompanha muitas pessoas hoje: a necessidade de ter tudo sob controlo. Controlar as emoções, o futuro, as decisões, as relações, até o que os outros sentem. À primeira vista, parece uma estratégia de vida prudente: se controlo, protejo-me. Mas, na realidade, esse excesso de controlo costuma esconder um medo profundo: o medo de perder o equilíbrio, de errar ou de não estar à altura.

O problema é que a vida não se deixa controlar. E quanto mais tentamos dominá-la, mais ela nos escapa por entre os dedos.

Largar não significa desistir, significa dar espaço para que a vida flua, para que tu voltes a respirar e reencontres o teu verdadeiro poder: o de escolher como respondes, mesmo que não possas controlar o que acontece.

Porque é que precisamos de controlar tudo

Desde pequenos aprendemos que ter o controlo é sinónimo de segurança. Se tirar boas notas, se fizer o que está certo, se antecipar o que pode correr mal, “nada de mal vai acontecer”. Mas a mente humana não se contenta em controlar o necessário — procura controlar também o impossível.

Este impulso de controlo ativa-se sobretudo quando vivemos experiências em que sentimos que perdemos o poder ou a estabilidade. O cérebro regista essas vivências como ameaças e decide não voltar a passar por ali. Então cria um padrão: “se controlo, estou a salvo”.

O problema é que esse padrão transforma a vida num estado de alerta permanente. Controlar torna-se um mecanismo de defesa:

E o mais importante: confundimos o controlo com a segurança, quando, na realidade, o que mais segurança dá é a capacidade de nos adaptarmos ao inesperado.

O ruído mental: um sinal, não um inimigo

Quando a mente não para, costumamos culpá-la: “penso demasiado”, “não consigo desligar”. Mas o ruído mental não é teu inimigo. É um sinal de que algo dentro de ti está a pedir atenção.

O teu cérebro não produz pensamentos ao acaso: tenta proteger-te. Quando acumulas stress ou emoções não processadas, a mente fica hiperativa para manter o controlo, criando uma sensação constante de alerta.

Este estado tem uma explicação neurofisiológica. A amígdala, centro do medo, mantém-se ligada e envia sinais de perigo mesmo quando não há uma ameaça real. Entretanto, o córtex pré-frontal — a área que te permite refletir e tomar decisões — reduz a sua atividade. O resultado: pensamentos repetitivos, sensação de sobrecarga e desligamento do corpo.

O que está por trás do excesso de pensamento?

O pensamento compulsivo costuma ser uma estratégia de sobrevivência emocional. Se cresceste em ambientes onde o controlo ou a previsão eram necessários para te sentires seguro, a tua mente aprendeu a antecipar tudo. Esse hábito transforma-se num padrão automático.

Por isso, quando tentas “não pensar”, o cérebro interpreta-o como perigo: tem medo de perder o controlo. Em vez de o forçar ao silêncio, é preciso ensinar-lhe uma nova via de calma e segurança.

O desligamento entre corpo e mente

O ruído mental também aparece quando o corpo e a mente estão desligados. Vives na cabeça, mas mal sentes o corpo. E sem corpo não há presente.

Em neurociência fala-se da importância do feedback interoceptivo: os sinais internos do corpo que informam o cérebro sobre como estás. Se não escutas esses sinais, o cérebro não consegue regular-se.

Por isso, técnicas como a respiração consciente ou a atenção plena não são simples “modas”, mas treinos neurológicos que restabelecem essa ligação. Não se trata de “deixar de pensar”, mas de voltar a habitar-te.

Como acalmar a mente e voltar à presença

Não podes silenciar a mente à força. Mas podes oferecer-lhe algo melhor: segurança. O silêncio interior não se alcança deixando de pensar, mas ensinando ao corpo e ao cérebro que já não há perigo.

1. Ancora-te no corpo

A mente corre quando o corpo está ausente. Volta a ele através de sensações simples: notar a respiração, os pés no chão, o peso do corpo na cadeira. Sempre que fazes isso, o sistema nervoso parassimpático ativa-se e o alerta baixa. É uma forma fisiológica de dizer ao cérebro: “estamos a salvo”.

2. Reeduca o diálogo interno

Quando notares pensamentos repetitivos, não lutes contra eles. Observa-os como sinais. Pergunta-te: “O que é que este pensamento está a tentar proteger em mim?”. Ao responder a partir da curiosidade e não do julgamento, abre-se um espaço de consciência onde a mente se acalma por si só.

3. Cria pausas reais

Vivemos a acumular estímulos: notificações, trabalho, ecrãs. A mente não tem onde descansar. Introduz micropausas no teu dia, mesmo de um minuto, para observar a respiração ou olhar pela janela sem objetivo nenhum. O cérebro aprende por repetição, não por intensidade.

4. Usa a terapia como espaço de religação

Uma sessão de terapia não serve só para “falar de problemas”. É um treino para estar presente, para voltar a ligar-te ao corpo, ao momento e às tuas próprias sensações. Quando aprendes a estar em ti, o ruído mental deixa de ser ruído: transforma-se em informação.

Recuperar a calma não é desligar a mente

É recuperar a capacidade de a escutar sem te perderes dentro dela. É voltar a sentir-te no centro, em equilíbrio entre o que pensas, sentes e fazes.

A tua mente não precisa de silêncio. Precisa de compreensão e de direção. E isso — pouco a pouco — devolve a clareza, o foco e a serenidade que julgavas perdidos.

Arantxa Pisón

Arantxa Pisón

Psicóloga sanitária, cédula profissional n.º G-2337. Trabalho em Vigo e online.

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