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Terapia de casal · 7 de novembro de 2024

Como lidar com os ciúmes numa relação?

Por Arantxa Pisón, psicóloga sanitária, cédula profissional n.º G-2337

Os ciúmes numa relação podem ser um desafio significativo, já que tendem a gerar tensões e, em alguns casos, podem desgastar o vínculo do casal. No entanto, na sua forma moderada, os ciúmes também podem ser interpretados como uma reação natural e até protetora em certos contextos. De uma perspetiva psicológica, os ciúmes costumam surgir de inseguranças pessoais, de experiências passadas ou de uma vinculação ansiosa, e compreender a sua origem é essencial para aprender a lidar com eles de forma saudável.

Compreender os ciúmes e a sua origem psicológica

Os ciúmes são uma emoção complexa que combina medo, insegurança e frustração. Muitas vezes, esta emoção ativa-se perante a perceção (real ou imaginada) de uma ameaça à relação. Ao explorar a causa dos ciúmes, tanto a nível pessoal como no contexto da relação, é possível gerir esta emoção e evitar que prejudique a ligação do casal. Este autoconhecimento é um primeiro passo crucial para transformar os ciúmes numa oportunidade de crescimento.

A partir da teoria da vinculação, a psicologia descreve como o estilo de vinculação afeta a forma como as pessoas vivem os ciúmes e lhes respondem. As pessoas com uma vinculação ansiosa costumam ter uma necessidade constante de segurança e aprovação, o que as torna mais propensas a reagir com ciúmes em situações que percebem como ameaçadoras. Por outro lado, quem tem uma vinculação evitante pode reprimir as suas emoções de ciúme, criando um afastamento que também afeta a relação. Compreender estas dinâmicas ajuda cada membro do casal a identificar as suas próprias predisposições e a trabalhar em conjunto para criar uma relação mais equilibrada.

Tipos de ciúmes na relação

Ciúmes reativos

Os ciúmes reativos são aqueles que respondem a situações reais que podem ameaçar a relação, como uma infidelidade passada, interações ambíguas do companheiro ou certos comportamentos que criam dúvidas. Embora este tipo de ciúmes possa ser justificado em alguns casos, a resposta emocional pode tornar-se desproporcionada se não for gerida de forma adequada.

Na terapia de casal, os ciúmes reativos são abordados através de técnicas de comunicação que permitem a ambos exprimir as suas emoções sem medo de serem julgados. Trabalha-se para identificar que comportamentos específicos ativam a resposta de ciúmes e para construir acordos que deem segurança a ambos sem afetar a sua autonomia.

Ciúmes ansiosos ou projetivos

Os ciúmes ansiosos costumam basear-se em medos internos, mais do que em ameaças reais. Estas emoções derivam de inseguranças pessoais ou de experiências de abandono, e são comuns em pessoas com um estilo de vinculação ansioso. As pessoas que vivem este tipo de ciúmes tendem a ter pensamentos recorrentes de insegurança, duvidando do seu próprio valor e da lealdade do companheiro.

Para lidar com os ciúmes ansiosos, é fundamental trabalhar a autoestima e a segurança pessoal. Técnicas como a reestruturação cognitiva, utilizadas na terapia cognitivo-comportamental (TCC), ajudam a questionar e substituir pensamentos irracionais.

Ciúmes retrospetivos

Os ciúmes retrospetivos são aqueles que se baseiam nas relações passadas do companheiro. Este tipo de ciúmes pode surgir quando uma pessoa se sente ameaçada pelas experiências anteriores do seu companheiro ou da sua companheira, o que desencadeia sentimentos de comparação e insegurança. Apesar de não se basearem em acontecimentos atuais, estes ciúmes podem ter um impacto significativo na relação se não forem geridos corretamente.

A reestruturação cognitiva também é eficaz para lidar com os ciúmes retrospetivos, já que ajuda a pessoa a separar as experiências passadas da realidade atual. Ao mudar a perspetiva sobre estas situações, consegue-se uma maior aceitação da história do outro, sem que isso afete a autoestima ou a perceção da relação atual.

Estratégias psicológicas para lidar com os ciúmes no casal

Praticar a autoconsciência e a autovalidação

A autoconsciência é uma ferramenta essencial para compreender a origem dos ciúmes e geri-los de forma eficaz. Consiste em observar e aceitar as próprias emoções sem as deixar controlar o comportamento. Em terapia, a autoconsciência cultiva-se através de exercícios de mindfulness e de reflexão sobre os pensamentos que desencadeiam os ciúmes, ensinando a pessoa a identificar os sinais emocionais antes que se tornem reações automáticas.

A autovalidação também tem um papel crucial. Quando uma pessoa é capaz de reconhecer e validar os seus próprios sentimentos sem depender da aprovação externa, a sua necessidade de controlar o companheiro diminui. A terapia cognitivo-comportamental promove esta independência emocional, ajudando as pessoas a valorizarem-se por si mesmas e a confiarem nas suas capacidades para manter uma relação saudável.

Promover uma comunicação honesta e aberta

A comunicação aberta é fundamental para criar uma base de confiança na relação. Neste processo, cada membro do casal deve sentir-se seguro ao exprimir os seus medos, inseguranças e necessidades sem ser julgado. Em terapia, trabalha-se a escuta ativa e a empatia, incentivando cada membro a receber as preocupações do outro sem adotar uma postura defensiva.

Estabelecer limites saudáveis

Os limites são essenciais para lidar com os ciúmes no casal. Estabelecer limites não implica restringir a liberdade do companheiro, mas sim chegar a acordos que ofereçam segurança emocional a ambas as partes. Estes acordos podem abordar temas como o tempo passado com os amigos, o uso das redes sociais ou a forma de gerir a interação com outras pessoas.

Trabalhar a segurança e a autoestima pessoal

A segurança e a autoestima são fatores-chave para reduzir a intensidade dos ciúmes. Quando uma pessoa tem uma autoestima sólida e se sente segura do seu próprio valor, a sua perceção de ameaça diminui e os ciúmes tornam-se menos frequentes. Na perspetiva da psicologia positiva, trabalhar a autoconfiança e o autocuidado permite que cada membro do casal se sinta pleno e completo, sem depender da aprovação ou da atenção constantes do companheiro.

Como a terapia de casal ajuda a lidar com os ciúmes

Identificar padrões de pensamento ciumento

Em terapia, o terapeuta ajuda cada membro do casal a identificar os padrões de pensamento que alimentam os ciúmes. Através de técnicas da TCC, questionam-se e desafiam-se os pensamentos automáticos negativos que surgem perante determinadas situações, como a interação com outras pessoas. Este processo permite tomar consciência dos padrões de pensamento que intensificam os ciúmes e transformá-los em respostas mais racionais.

Ao desafiar e reformular estes pensamentos, o casal pode evitar cair em reações impulsivas que só reforçam a desconfiança. Além disso, o processo de identificar e mudar os pensamentos ciumentos permite desenvolver uma maior autonomia emocional, fortalecendo a estabilidade da relação.

Redefinir expectativas e construir confiança

Os ciúmes surgem muitas vezes de expectativas não expressas ou de uma falta de clareza sobre as regras da relação. Em terapia, o casal trabalha para redefinir as suas expectativas e construir acordos realistas que minimizem a insegurança. Este processo fortalece a confiança mútua, permitindo que ambos se sintam seguros e ouvidos na relação.

Fortalecer o vínculo emocional

Um dos objetivos da terapia é ajudar o casal a fortalecer o seu vínculo emocional e a voltar a ligar-se a um nível mais profundo. Os ciúmes diminuem quando a relação é emocionalmente segura e sólida. Através de exercícios de ligação e de comunicação emocional, o terapeuta guia o casal na criação de uma relação resiliente e baseada no apoio mútuo.

Superar os ciúmes para fortalecer a relação

Aprender a lidar com os ciúmes não só beneficia a relação, como também impulsiona o crescimento pessoal de cada membro do casal. Os ciúmes podem tornar-se uma oportunidade para ambos trabalharem a sua autoconfiança, a sua comunicação e a sua compreensão mútua. À medida que os ciúmes são geridos de forma construtiva, o casal reforça a sua ligação e constrói uma relação mais sólida, equilibrada e respeitosa.

Em suma, os ciúmes, quando bem geridos, podem tornar-se uma oportunidade de aprendizagem e de fortalecimento para o casal. Com o apoio de técnicas psicológicas e a orientação de um terapeuta, se for necessário, o casal pode superar os ciúmes e construir uma base de confiança e respeito mútuo. No fim, os ciúmes não têm de ser uma ameaça; podem ser uma porta para uma relação mais consciente e gratificante.

Arantxa Pisón

Arantxa Pisón

Psicóloga sanitária, cédula profissional n.º G-2337. Trabalho em Vigo e online.

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